domingo, 27 de abril de 2014

AS ESTRELAS FRIAS


De criança eu já previa o meu sofrimento futuro.

 Admirando ali as estrelas pipocando o breu do firmamento.

Era eu e a minha irmã, sentadas no batente da cozinha pertinho da minha avó  que de cócoras exalava o seu encantador cheiro de baforadas de cachimbo.

A minha avó apontava para as constelações e explicava os nomes de cada uma

– Aquela ali é as três Marias. – O cruzeiro do Sul. – O escorpião...

Eu ficava assim, bem juntinho dela, aproveitando o seu cheirinho com uma dor no peito que eu não entendia direito.

No fundo eu sabia, que aquelas estrelas frias continuariam lá, brilhando quando a minha avó não existisse mais.

Eu entendia que aquele encantamento se perderia ali e que, no futuro, olhar as estrelas seria chamar a dor da saudade para dentro de mim.

Depois aprendi que as estrelas, coitadas, morrem também.

Mas, por uma justiça que eu ainda não conheço, duram mais do que a vida de alguém.

(Ivana Lucena, 2014)


Endereço da imagem: 
http://3.bp.blogspot.com/_S52DxpRvNPc/TOcDi_BPQkI/AAAAAAAAAb0/pC4TMSZ5bIY/s400/cielo.jpg

7 comentários:

  1. Lindo amiga! Tudo a ver com a preocupação da minha neta comigo... ela não se conforma de que eu vá precisar ir antes.... daqui a pouco a vida ensina e outros objetivos aparecem. Muito bonito o texto. Beijo.

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    1. Mães e avós eram para ser eternas! Dá mesmo uma dó saber o que a sua netinha sente. Obg por ter lido meu texto, Estou feliz que tenha gostado. Beijos

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    1. Estou muito feliz que tenha gostado, querida. Que bom que veio me conhecer! bjs

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    1. Valeu, Rafael! Fico tão feliz que vc tenha gostado do meu texto! Obg.Um abraço.

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  4. Também ainda não entendi porque é que as coisas duram mais que as pessoas...Se alguma estrela te disser...avisa-me!
    Bj
    Graça

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